2# ENTREVISTA 18.3.15

CATE BLANCHETT - "AS MULHERES PODEM FAZER SEU PRPRIO CONTO DE FADAS"
A atriz assume a pior vil de sua carreira, a Madrasta de "Cinderela", que estreia no dia 26, e diz que seu prximo desafio profissional  no fazer absolutamente nada
por Elaine Guerini, de Londres 

BORRALHEIRA - Vencedora de dois Oscar, a diva conta que teve de passar por uma "madrasta m" em Hollywood

A atriz australiana Cate Blanchett caiu nas graas do pblico pelas rainhas, princesas e mulheres elegantes que interpretou no cinema. Sua beleza clssica e suas escolhas profissionais certeiras contriburam para uma carreira luminosa e premiada, que nunca a desviou de sua prioridade, a famlia. Aos 45 anos, Cate acaba de adotar uma menina, Edith Vivian Patricia, quarta filha de uma fila de trs meninos (Ignatius Martin, de 6 anos, Roman Robert, 10, e Dashiell John, 13), fruto da relao de 18 anos com o dramaturgo Andrew Upton.

"O Prncipe revela suas fragilidades, o que  um aprendizado difcil para os homens - vejo isso em casa com meus meninos!"

E, aos 45 anos, a atriz vai viver a pior vil de sua carreira, a Madrasta de Cinderela, filme da Disney que estreia na quinta-feira, 26. Dirigido por Kenneth Branagh, o longa-metragem se aproxima da animao de 1950, verso mais que aucarada do original dos irmos Grimm. Mas aqui, garante a atriz, princesa e prncipe esto em p de igualdade. Alada a cone feminista ao esbravejar com um cinegrafista que filmou seu corpo de alto a baixo durante a cerimnia de entrega do Oscar de 2014 (do qual saiu com a estatueta de Melhor Atriz), Cate Blanchett acredita que hoje as mulheres podem criar contos de fada a partir de suas vidas e que a mensagem de Cinderela  maior que a questo da desigualdade entre os sexos. Prefiro o filme por ensinar as crianas que o mundo pode ser um lugar ruim e que  preciso uma boa dose de coragem e resistncia para sobreviver 

"O Oscar deve ser um bnus na vida de um ator. Estou muito satisfeita com as minhas duas estatuetas. No planejo roubar nenhuma"

Isto - A animao de Cinderela de 1950 refletia o modelo de comportamento feminino da sociedade da poca, machista. Cinderela era obediente e, como prmio por sua resignao, ganhava um casamento com um homem rico e poderoso. O filme que estreia agora poderia ter avanado mais nesse sentido, no?

CATE BLANCHETT - Respeito a deciso do diretor (Branagh) de no ter feito uma verso atualizada do conto de fadas, preferindo manter os elementos do clssico. Acredito, no entanto, que os personagens evoluram naturalmente. Na animao, Cinderela era um tapete pisado por todos, enquanto o Prncipe no passava de um bonito. Aqui h uma preocupao em desenvolver melhor os personagens psicologicamente. O prncipe revela suas fragilidades, o que  um aprendizado difcil para os homens  vejo isso em casa com meus meninos! Ao mesmo tempo que Cinderela pode manifestar seus desejos de uma maneira menos passiva, em p de igualdade. 

Isto - D pra dizer que o filme tem um engajamento? 

CATE BLANCHETT - O filme  sim feminista porque Cinderela no se interessa pelo que o consorte possa lhe oferecer: a libertao do cativeiro, uma vida confortvel e tudo aquilo que a gente imagina depois do final feliz.  uma escolha amorosa. Mas o que acho mais forte e importante  em Cinderela   o fato de a obra ensinar as crianas que o mundo pode ser um lugar ruim e que  preciso uma boa dose de coragem e resistncia para sobreviver.

Isto - Como acha que as mulheres respondero ao filme Cinderela no contexto atual, em que esto revitalizando o movimento feminista? 

CATE BLANCHETT - Acho que vivemos uma era onde a mulher pode e deve fazer o prprio conto de fadas. Cinderela sempre foi e ser uma mulher extraordinria, por ser verdadeira, honesta e gentil. Diferentemente da animao, aqui ela consegue se impor. No de um jeito enrgico e direto. Mas de um modo mais discreto e silencioso. A mensagem ainda  a mesma: bondade atrai bom carma. No  uma mensagem ruim.

Isto - Apesar do currculo em blockbusters e a presena em grandes eventos de celebridades, voc conseguiu se preservar do assdio e da exposio em dirios e revistas de fofocas. Qual o segredo?

CATE BLANCHETT - Tudo depende de como a gente se apresenta e se comporta.  muito simples. Para manter certo enigma, voc no pode se exibir sem necessidade por a. Lendas como (Marlene) Dietrich e (Joan) Crawford, mulheres que admiramos at hoje,  que sabiam seduzir com sua discrio e comedimento. 

Isto - Mas naquele tempo no era preciso passar as quatro estaes do ano sob holofotes para continuar no mainstream em Hollywood.

CATE BLANCHETT - Sem dvida elas se beneficiaram do perodo em que viveram. Naquela poca, Hollywood celebrava muito mais a inteligncia e o poder das mulheres. E os diretores de fotografia do passado sabiam filmar mulheres, deixando-as muito mais interessantes e ambguas. 

Isto - Essa averso  cultura da celebridade pode ser feita dentro de um produto hollywoodiano como Cinderela?

CATE BLANCHETT - A beleza no filme  uma iluso, algo que decepciona no final. No comeo a madrasta desponta como uma mulher atraente. Mas se revela impiedosa, egocntrica e assustadora ao longo da trama. De repente, aqueles clios postios e o batom vermelho poderosos passam a nos dar calafrios (risos). O mais triste no culto  celebridade  a noo de que todos os atores so motivados pela aparncia e pelo dinheiro, o que no  verdade. Acho que essa mensagem est l tambm.

Isto - Queria ter vivido a Era de Ouro do cinema?

CATE BLANCHETT - Certamente. Por mais que as estrelas do passado tivessem a imagem manipulada pelos estdios, elas eram respeitadas e valorizadas. Costumavam ser tratadas como deusas. Os papis eram escritos especialmente para elas, permitindo que desenvolvessem todo o seu potencial no set. 

Isto - Isso quer dizer que no  mais possvel viver todo o potencial dentro de um estdio de cinema?

CATE BLANCHETT - Quer dizer que o mundo e a indstria mudaram, instigando um consumo cada vez mais voraz de imagens e notcias de cinema. Com isso, a percepo do pblico tambm foi alterada. Ele j no se contenta mais em apreciar seus atores preferidos  distncia.  

Isto - J trabalhou com atrizes que se comportaram como madrastas no set?

CATE BLANCHETT - Tive uma experincia ruim no incio da carreira. S no vou dizer quem foi (risos). No sei se ela se sentia ameaada por mim, como  o caso da madrasta no filme. Talvez a pessoa estivesse simplesmente vivendo um momento difcil, descontando tudo nos outros. Quem sabe ela estivesse na menopausa (risos). Prefiro pensar que foi um aprendizado. Aquilo que no consegue me matar, me fortalece.

Isto - E o contrrio? Por ser quem , sente que intimida os atores mais jovens ou os menos conhecidos?

CATE BLANCHETT - No. No fundo eu sou uma idiota (risos). Quando estamos trabalhando, estamos todos no mesmo barco. Meus colegas vem logo que sou to insegura quanto eles. A melhor maneira de conhecer as pessoas  trabalhando com elas. Adoro a histria do jantar de Woody Allen e Ingmar Bergman. Eles simplesmente no conversaram. De tanto medo de desmitificar o grande mestre, Woody no perguntou nada, preferindo deixar a mesa com a mesma impresso que tinha antes de conhecer Bergman pessoalmente. A dupla se admirava demais para correr o risco de estragar o sentimento com palavras. E aparentemente foi uma noite maravilhosa para ambos.

Isto - Mesmo com a plateia sabendo exatamente como os contos de fada terminam, eles ainda a fascinam. Por qu?

CATE BLANCHETT - Apesar de sabermos onde a histria nos levar, ns nos deliciamos com a jornada.  como Hamlet de William Shakespeare. No nos cansamos de ver a montagem. H um certo conforto na familiaridade, ao ouvirmos uma histria de novo. Eu amo contos de fadas como Cinderela por eles lidarem com questes complexas enfrentadas por crianas. As histrias que o pblico infantil ouve hoje tendem a faz-los se sentir como heris superpotentes, como se pudessem superar qualquer coisa. 

Isto - O filme vende a bondade como um superpoder. Voc acha que isso convence esse pblico?

CATE BLANCHETT - Gentileza e bondade so superpoderes, ainda que esses adjetivos possam ser equivocadamente interpretados como um sinal de fraqueza no mundo cnico em que vivemos. Cinderela tem uma grande fora anterior, alm de ser bondosa e justa. As pessoas esquecem como  preciso ser forte para perdoar. Adoro a cena em que Cinderela diz perdoar a madrasta, ainda que esta nunca pea desculpas por tudo o que fez. Acho a ideia muito relevante nos dias de hoje, quando o mundo est movido a dio e vingana. Perdo  o que precisamos.

Isto - Apesar de terrvel, a madrasta que voc leva s telas revela seu quinho de humanidade? 

CATE BLANCHETT - No momento que aceitei interpret-la, pedi que passssemos a descrev-la como perversa e no necessariamente como feia. Ningum  puramente do mal. Tudo depende do que nos acontece na vida. O que me interessou foi explorar o que fez dela uma mulher to cruel e, por isso, feia. Mostramos que ela teve seus sonhos destrudos.

Isto - Angelina Jolie diz ter filmado Malvola para seus filhos. Fez o mesmo?

CATE BLANCHETT - No necessariamente. Na minha famlia por enquanto s os filhos homens assitem a meus filmes. E eles ficaram muito mais orgulhosos por eu ter participado de franquias como O Senhor dos Aneis e O Hobbit (risos). Mas espero que eles vejam o filme. Ainda que Cinderela coloque em primeiro plano as relaes femininas, entre mes, filhas, irms, madrastas e enteadas, h uma subtrama sobre pais e filhos. Os meninos at podem dizer que no querem ver. Quando suas irms comearem a v-lo no canal a cabo, no entanto, eles devem parar diante da televiso. 

Isto - Voc pertence a um clube privilegiado de atrizes vencedoras de dois Oscars (por O Aviador, em 2005, e Blue Jasmine, em 2014). Se desejasse mais um seria at ganncia?

CATE BLANCHETT - (Risos) Seria. At porque o Oscar deve ser um bnus na vida de um ator e no a motivao por trs de tudo o que ele faz. As pessoas so obcecadas demais pelo prmio. Estou muito satisfeita com as minhas duas estatuetas. No planejo roubar nenhuma (risos).

Isto - Depois da conquista do Oscar, teve aquela sensao: E agora, como poderei superar isso?

CATE BLANCHETT - No. Meu maior desafio profissional no momento  no fazer absolutamente nada. Esse  o meu plano para 2015. Quero levar uma vida tranquila em Sidney, onde o meu marido comanda a nossa companhia teatral. Nem atuar nos palcos eu quero por enquanto. Talvez s em 2016. A vida, em si,  algo incrivelmente interessante, ainda que a minha no seja tanto.

Isto - No  mesmo?

CATE BLANCHETT - No, apesar de sempre quererem saber o sabonete que eu uso e outras tolices do gnero (risos).

